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Queres chá? Yes, please!

A gente pensa nos ingleses e já vem à cabeça que eles tomam chá o tempo todo, certo? Bem, verdade – chá para os ingleses hoje é quase a bebida nacional (talvez depois da cerveja?), mas não foram eles que tiveram primeiro a idéia. Quem apresentou o chá aos ingleses foi uma Rainha Portuguesa, Catarina de Bragança.

Catarina de Bragança, na verdade, foi uma figura política um tanto quanto apagada. Seu casamento com o Rei Carlos II da Inglaterra foi, como era comum na época, um pacto de amizade entre os dois países. Junto com a esposa, Carlos II ganhava também um interessante dote: a fortaleza de Tânger e a Ilha de Bombaim, na Índia.

À esquerda: Rainha Catarina de Bragança, por Peter Lely. À direita: Rei Carlos II, por John Michael Wright. Ambas imagens em domínio público.

Apesar dos ricos presentes, a vida matrimonial não foi das mais felizes. O rei Carlos II foi conhecido como “The Merry King” (O Rei Feliz) e as más línguas diziam que parte do motivo da felicidade eram as inúmeras amantes que ele tinha e desfilava abertamente. Catarina, por sua vez, não gostava da situação, mas também não gozava de uma boa imagem com os seus súditos – de fé católica, ela olhada com suspeitas (e às vezes como alvo) num país recém protestante.

Porém, talvez tenha sido ela a rainha que ensinou os ingleses a gostar de chá. Reza a lenda de que ela trouxe folhas de chá como parte de sua bagagem pessoal – tomar chá já era um hábito normal para os portugueses, graças ao comércio direto que tinham com a colônia de Macau na China, onde as ervas eram produzidas. Só que na época, os ingleses conheciam o hábito de tomar infusões de ervas apenas com finalidades curativas. Ao bebericar seu chá com frequencia, antes e durante de qualquer evento social na corte apenas para seu bel-prazer, Catarina de Bragança apresentou a bebida à corte inglesa que se apressou como imitar a rainha. Outro motivo é que chá era uma iguaria cara (e, portanto, subiu rápido ao status de objeto de desejo): A Inglaterra naquela época ainda não tinha comércio com a China; os chás da Índia ainda não tinham aparecido na história, os únicos além dos portugueses a vender chás eram os holandeses, que ofereciam pequenos punhados de ervas a preço de ouro. Fora as taxas.

Maks Karochkin, licensed under CC BY 2.0

Outro detalhe importante do ritual do chá: como Portugal tinha uma rota de comércio com a China, era dessa rota que chegavam preciosos conjuntos de porcelana chinesa para a corte Portuguesa – algo que Catarina certamente também trouxe na sua mala de mão. Logo, o chá pula de bebida luxuosa a um ritual com louças finas. Logo logo, qualquer moça da aristocracia inglesa que quisesse circular nos altos círculos da corte com a Rainha tinha que ter (e saber usar) todo aquele set de louça apropriadamente. Estava lançada a moda – e se o amor entre Catarina e Carlos não foi dos mais fervorosos, o amor entre os ingleses e o chá da Rainha nunca esfriou.

 

Curiosidade: “chá” ou “tea”?

Há uma história que diz que na mudança de Catarina de Bragança para a Inglaterra havia caixas de madeira escrito “Transporte de Ervas Aromáticas” – que os ingleses simplesmente liam como T.E.A. e daí viria o nome da bebida. Mas isso atualmente não é considerado verdade (ainda que renda uma boa história!).

Estudiosos acreditam que os nomes “chá” e “tea” nasceram, juntos, de uma variação do chinês.

Veja bem, há basicamente duas variações de nomes para a bebida. Uma é a variação inglesa “tea” (ou “té” como no espanhol, ou “tee” no alemão); outra é a variação com “ch”, como o “chá” em português no “chay” como na Turquia ou Rússia.

Porque os dois nomes? A diferença aqui é onde a bebida era comprada primeiro antes de seguir a rota para a Europa: os locais onde a bebida tem a variação começada com “te” (como Inglaterra, Holanda, Espanha, etc) adquiriam o chá via comerciantes holandeses, que compraram o produto de duas cidades costeiras chinesas que usavam o nome “te” para a bebida. Todas as outras cidades do resto da China (especialmente as que negociavam por terra, na famosa Rota da Seda), usavam o radical “cha” para se referir ao produto. Logo, o nome da bebida se popularizaria pelo mundo dependendo da “gíria local”, digamos, que o vendedor chinês utilizava para vender ao europeu. Se o Europeu comprasse de cidades costeiras com rotas pelo mar, era “te”. Se a bebida chegasse à Europa via terra, pela Rota da Seda, era “cha”.

Crédito da imagem: Quartz

Por isso que, ao olhar o mapa, vemos que Turquia, Rússia, Pérsia e Índia, que negociavam via terra com a China, usam as versões para “chay”, enquanto que os países europeus que negociavam por mar usam, na sua maioria, a versão “te” (tea, té, tee, thé).

A única exceção é Portugal, que negociava diretamente com Macau (que fica no mar), mas que ali, curiosamente, o nome local da bebida é o radical “ch”. Logo, é o único país europeu que chama a bebida de um jeito diferente!

 

Imagem de destaque: “English Tea Pot” por LeonardKong com licença CC BY 2.0

 

Sobre a Autora:

Clarissa Donda é jornalista e Guia Blue Badge de Londres, responsável pelo Dondeando por Londres. Uma apaixonada pela Inglaterra e excelente contadora de histórias, ela é conhecida sobretudo pelos tours infantis que oferece, sua especialidade. Seus tours mais vendidos são o Mercado Financeiro para crianças e o tour pelo Mundo, realizado dentro do museu. Você pode encontrar todos os tours que ela organiza aqui, ou falar com ela diretamente pelo IG @DondandoporLondres